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12.11.06

Reportagem: “Turning” (Antony and the Johnsons / Charles Atlas)

Sala Principal do Theatro Circo, Braga, 10 de Novembro de 2006

Há dois anos atrás, nem mais nem menos, Antony estava em Portugal (sem os The Johnsons) para assegurar a primeira parte das Cocorosie. Nessa altura Antony já dispunha de algum culto no meio mais underground graças ao seu registo de estreia “Antony And The Johnsons”, que vê a luz do dia em 2000 pelas mãos da editora de David Tibet, tendo mais tarde colaborado ainda com Lou Reed. Desde há dois anos a esta parte, Antony capta a atenção do mundo após o lançamento de “I Am a Bird Now”, e acaba por vencer em 2005 (pouco depois de nova passagem pelo nosso país mas com os The Johnsons) o Mercury Music Prize de 2005. Desde então o culto em torno da sua música, da sua voz, e da sua figura, cresce a um ritmo imparável, sendo actualmente um dos artistas pop mais requisitados no Mundo. O seu regresso a Portugal faz-se com “Turning”, um espectáculo que combina a música doce e emotiva de Antony, às imagens de Charles Atlas (captadas e manipuladas no momento), numa data única no nosso país, no renovado Theatro Circo em Braga há muito esgotado. Se a isto juntarmos o facto de este espectáculo ter sido apresentado apenas em mais quatro salas europeias nesta tournée, num total de 7 datas, percebe-se toda a entrega por parte do público associada à enorme devoção que trouxe de todo o lado fãs indefectíveis para assistir à noite mágica que se viveu.

“Turning” é muito mais que um concerto, é um espectáculo em que Antony, acompanhado pelo ensemble de oito elementos dos The Johnsons (piano, baixo, bateria, violino, violoncelo, viola, acordeão e clarinete/saxofone), e das imagens de Charles Atlas, se expõe, e mais uma vez, se mostra natural com toda ambiguidade que a sua sexualidade envolve. È que Antony canta em “For today I am a boy “ que “One day I'll grow up, I'll be a beautiful woman / One day I'll grow up, I'll be a beautiful girl”. Antony é um homem, um homosexual. Tem trejeitos femininos, tem corpo masculino. É alto, largo, desengonçado é o termo. Podíamos ter ali um transformista como Baby Dee, uma das fontes maiores de inspiração para Antony, mas não. Temos ali um Antony assumido na sua sexualidade, expondo emoções, contidas, reais ou fictícias, mas sentidas, doridas. Acima de tudo é autêntico, e com todo o reconhecimento e requisito de que tem sido alvo nos últimos dois anos, o maravilhoso é ver um Antony ainda assim fiel a si mesmo. Prova disso ainda o uso de um sweat rasgada por baixo de um colete que lhe dava um ar mais cuidado. Usa maquilhagem… Fiel…, usa o discurso de Martin Luther King em fase de aquecimento para uma entrada triunfal, onde à boca do palco (en)canta, embala só, com a sua voz titubeante… Treze mulheres (sim, porque se eram transexuais algumas delas incluíam-se no lote das que meio mundo hetero pagava para ter na cama – a proximidade a que estava delas serve como prova…) entraram entretanto em fila pelo fundo da sumptuosa sala, e sentam-se em frente ao palco. Uma a uma sobem ao palco onde em cima de uma placa giratória se expressam, se exibem, se desnudam de emoções…. Ternura, angústia, alegria, emoções expressas no limite, com imagens captadas por duas câmaras e que Charles Atlas sabiamente manipula numa estética belíssima. Arte! Belas, muito belas, nuas no tronco, debilitadas fisicamente fruto do avançar da idade, excessos de maquilhagens ou pinturas, voluptuosas ou não, negras, no fundo, mulheres e tudo o que se pode ver/ter/ser no sexo feminino. Ali, Atlas capta as angústias de Antony. A sua sexualidade está a nu, no fundo o filme da sua vida. A complexidade do espectáculo está aqui, mesmo que na genialidade se possa sentir que a meio a fórmula se pareça repetitiva.

É a pop autobiográfica que cruza géneros para além dos sexuais. É-o tão genuína como sentida, frágil, de relação intimista. Antony percorre as suas composições com novos arranjos, e só em “Hope There's Someone” se senta ao piano para o momento mais intenso e arrepiante da noite. Não menos atrás, recordarão todos os presentes para sempre aquele enorme momento de silêncio a meio de “I Fell in Love with a Dead Boy” que ninguém ousou interromper. Momento mágico em que nem a respiração do vizinho do lado se sentiu. Para o fim uma enorme ovação (das maiores a que já assisti até hoje), sincera, antes de “You Are My Sister” que marca o fim de um espectáculo apenas quebrado antes deste último tema em encore por um tímido “Obrigado”. Obrigado dizemos nós, a ele, a quem o acompanhou, e a quem teve a bondade de o trazer até nós… Até uma próxima, e que mais uma vez seja breve!

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