Reportagem: Akron/Family
Pequeno Auditório do Theatro Circo, 23 de Abril de 2007




Cenário possível: o palco deste concerto é numa sub-cave da cave da rua indie/underground mais escura de Nova Iorque, e em cima dele, estão quatro freaks com ar de mal arrumados (que mais parecem agricultores acabados de largar o feno para dar de comer ao gado) e que aparentemente a meio do concerto poderão estar a voar mentalmente fruto do teor alcoólico da cerveja nacional! Mentira! Era a cave do Theatro Circo, e o seu Pequeno Auditório, onde Miles Seaton, Ryan Vanderhoof, Dana Jansen e Seth Olinsk, quatro jovens oriundos do meio rural norte-americano que se mudaram para Nova Iorque para conquistar o meio artístico, e acabaram por ser descobertos por Michael Gira (ex-Swans, patrão da Young God Records, responsável pela descoberta de Devendra Banhart), estarão ao longo de quase duas horas, a colocar em voo sim, mas os presentes.



O facto dos Akron /Family aterrarem em Braga numa segunda-feira, à meia noite, não foi impeditivo de terem perante si um sala bem composta pronto para os receber, mas cujas características físicas do espaço terão porventura dificultado uma maior festa que aquela que se verificou. A forma bucólica, diria mesmo pastoral, com que interpretaram o belíssimo “Love and space”, contrastou com outros temas em que incendiaram o público com guitarras, ritmos de bateria incendiários envoltos num baixo contundente, tudo oferecido na bandeja que alguns etiquetaram de new weird folk, quando de facto se viu ali foi muito rock! O facto é que os Akron /Family confessam não estar habituados a tocar em espaços com cadeiras, e com algum custo lá conseguiram, muito mais para perto do final, levar para a sua frente alguns elementos que dançam, ainda que meio timidamente, de calções, descalços, num ar ainda mais surrealista para semelhante cenário difícil de descrever.


A festa acabaria quase duas horas depois, com uma espécie de jam da banda com público que se encarregou de flautas, pandeiretas e instrumentos afins que por cima do palco se encontravam. Bichinhos de peluche meigos e inofensivos que chiam estimulados ao aperto, fecham a festa ao lado de um gigante de braços abertos que se julga um pássaro, acreditando que ele não se julga o super-homem. O surrealismo com ar sóbrio mais/menos estranho de sempre, ou não estivéssemos fora de um contexto já de si descontextualuzido. Improvisação num ambiente de festa e imprevisível, fértil na produção de energias espirais. Foi uma festa com os Akron /Family, mas podia ter sido melhor!


